Não estive
presente, mas espiritualmente, vibrei em sintonia com o Encontro dos Amigos de
Chico Xavier promovido recentemente em Torres, no RS – “um encontro espírita,
numa faculdade luterana, com a palestra de uma madre superiora católica”, nos
dizeres do biógrafo e amigo de Chico Jhon Harley Madureira Marques, já
celebrando os feitos de um importante evento espírita – inteiramente gratuito e
marcado pela simplicidade, como gostava e gosta o nosso Chico Xavier. “Um evento do século 21”,
nas palavras do mesmo Jhon Harley.
Eis que,
dias depois do encerramento, recebo nos grupos de Whatsapp e também vejo
postado na rede social Facebook uma tocante prece em honra a Chico. Uma prece
de Irmã Aíla Pinheiro. A mesma Irmã Aíla que, emotiva e do alto do seu conhecimento
bíblico, tem se mostrado personalidade cativante, a participar dos eventos
espíritas, a reverenciar Chico Xavier. Digo cativante, pelos vídeos que já pude
acompanhar embora eu não a conheça. Não fisicamente, pelo menos.
Um misto
de religiosidade, coragem e admiração, por certo, tocou o coração dessa nobre
irmã católica, apostólica romana, que sequer conheceu o médium mineiro.
Parafraseando a mim mesmo, “não fisicamente, pelo menos”.
E então,
baixo o áudio da prece de irmã Aíla. Só então entendi porque Geraldinho Lemos
Neto – biógrafo de Chico, assim como Jhon Harley – se enchem de alegria ao
anunciar que a religiosa prestigia os eventos espíritas devidamente trajada
como religiosa católica que é, honrando a vocação e os votos de renúncia feitos
diante da querida Igreja Romana...
Mas ela
não vai a esses eventos de maneira provocativa; não ostenta os trajes católicos
para “se mostrar”, como quem diz “olha, sou católica e estou aqui na Doutrina
Espírita, tenho coragem”. Não. Irmã Aíla veste seu hábito porque faz entender
seu profundo respeito por Chico. Na visão dela, aquele humilde mineiro; aquele
homem que tantos corações aflitos consolou, era e é, numa leitura católica,
apostólica e romana, um santo. “E diante de eventos consagrados aos santos,
eventos oficiais da Igreja, nós religiosos, temos de estar com nossa vestimenta
adequada”!
Ora,
observem o carinho, a reverência, o amor de Irmã Aíla por Chico Xavier! Num
período difícil do Brasil e mesmo diante de ações questionáveis no movimento
espírita, essa religiosa de fibra demonstra mais respeito por Chico que muitos
espíritas!
E ainda
por cima, ora...
Ora com
o coração... com a alma!
Ora com
terminologia católica... pede a Chico para “rogar por nós”; roga que possamos
estar um dia, com Chico, “diante da Glória do Cristo”; abençoa o nosso querido
médium! E pede que Jesus e Maria Santíssima, “os grandes amores da vida de
Chico”, igualmente o abençoem! Pede a Chico a intercessão, “num momento de
travessia”, e que ele ore e cuide de todos, e, diz Aíla, que aprendamos com
Chico, a seguir o Cristo!
A prece
de Irmã Aíla é mais do que um “tapa de luvas” no movimento espírita, tão cheio
de pseudo-intelectualismos, pseudo-lideranças, radicalismos, regras e
burocracias internas. É sinal de humildade; a mesma humildade que temos visto
com o Papa Francisco, nos seus esforços do diálogo inter-religioso; a mesma
humildade que vemos no bispo evangélico Hermes Fernandes, do RJ, aquele líder
religioso notável, que chamou diante do seu altar a mãe de santo e sua neta, a
menina do Candomblé apedrejada por fanáticos religiosos. E elas foram ao altar do
bispo, em suas vestes ritualísticas. E Hermes abraçou-as, acolheu-as, orou com
elas... e lavou os pés delas...
Qual espírita
fez isso? Qual espírita tem levantado sua voz recentemente diante dos cada vez
mais frequentes ataques aos humildes terreiros, espaços de culto dos nossos
irmãos de religiões de matriz africana? Qual espírita ousou levantar voz, nos
últimos tempos, em defesa das minorias, dos pobres, dos
esquecidos? Bem, Chico o fez...
E
eis
que Irmã Aíla não apenas vem e ora, sentidamente... mas denomina o
Chico, o
nosso Chico, de “São Francisco Cândido Xavier”. Ela vê em Chico, um
santo! Temos que respeitar a sua fraterna e transcendente visão. E fico
a pensar... quantos de nós, espíritas, temos orado a Chico e para Chico;
agradecido por seu cultivo ser tão profícuo nessa Pátria do Evangelho...
quantos?
E muitos
pseudo-intelectuais por certo, testa franzida, estão aos cantos, a dizer:
“-
Olhaí, mais um espírita católico mostrando seu atavismo!”
“-
Também, num encontro destinado a idolatrar Chico, esperar o quê?!”
“-
Evidente que iriam chamar uma freira, pois ainda não se desvencilharam dos laços
com a Igreja de Roma!...”
‘- São
um bando de igrejeiros esses ‘Amigos do Chico’”...
Ao nos
confrontar com essas expressões à boca miúda de certos confrades, lembro-me da
orientação carinhosa de dona Juselma Coelho, outra tarefeira abnegada do
movimento espírita lá das Gerais, igualmente amiga do Chico: “diante dessas
situações, irmão, silencia e trabalha”.
Pré-julgamentos
como esses vêm de pessoas que, por certo, não conhecem nem nunca estiveram num
encontro de Amigos do Chico – evento que há 10 anos, em vários pontos do País,
e agora em suas edições regionais, nunca se dispôs a idolatrar ou divinizar a
figura do médium, mas sim, a fazer a justa homenagem pelo singelo líder que o
foi sem nunca querer ter sido; a lembrança e o reconhecimento necessário às suas
mais de 500 obras, a seus 75 anos de vida pública; sua doação e renúncia
integrais; dedicação e vida que renderam, outorgado pelas mãos simples do povo
do brasileiro, o título de “Maior Brasileiro de Todos os Tempos”.
E então
surge Irmã Aíla. Com seu hábito; com sua simplicidade; com sua terminologia
abertamente católica, a orar a “São Chico”, e fazer-nos então entender, que
Chico, o qual, sob os auspícios do senhor Allan Kardec, Codificador da Doutrina
Espírita para quem foi absolutamente fiel em seus 92 anos de vida, é tudo isso
e muito mais. Ave, Chico! Que as vozes das diferentes tradições cristãs, mais e
mais, se unam para te agradecer e reverenciar! Obrigado, Irmã Aíla!
Juvan de
Souza Neto
Tarefeiro
da Comunhão Espírita Elo de Amor
Barra Velha,
litoral norte de Santa Catarina